Impactos da pandemia no turismo de observação de aves

A pandemia do novo coronavírus mexeu com a economia no mundo todo. Cada setor tem sofrido de maneira e intensidade diferentes. Bares e restaurantes por exemplo, tiveram que fechar as portas e criar outras formas de atendimento. Muitos empresários encontraram no sistema delivery a estratégia pagar as contas e reduzir o prejuízo.

No setor de turismo, a disseminação da doença criou uma situação jamais vista. Com as fronteiras fechadas, os países ficaram isolados.  Desde 27 de março está proibida a entrada no Brasil de voos do exterior. Internamente, houve uma redução drástica da oferta de voos. Entre março e maio, a malha aérea foi reduzida a 5 por cento do que era antes da pandemia. Para os próximos meses, a retomada das rotas começa a ser feita de forma bastante gradual.

Setor hoteleiro contabiliza as perdas

O município de Ubatuba, no litoral norte de São Paulo é um destino conhecido para a prática de birdwatching. Na cidade, hotéis e pousadas puderam reabrir em primeiro de julho. O empresário Alexandre Gomes, da pousada Torre del Mar, prefere esperar mais um tempo. Ele afirma que o rendimento obtido na temporada de verão ajudou a compor uma reserva financeira suficiente para atravessar essa fase. No início da pandemia, a pousada demitiu os sete funcionários. “Com isso, os custos fixos diminuíram. E vamos esperar para reabrir em setembro”, disse o empreendedor.

Ubatuba -SP

Trabalho dos guias de observação de aves

O isolamento social é a melhor forma de combater a doença. Com isso, passarinhar se tornou um passeio inviável. A falta de clientes interrompeu o trabalho dos guias de observação de aves e reduziu a zero a renda desses profissionais. O guia Nido Cafezeiro, de Itacaré, no sul da Bahia, fez a última guiada em 13 de março para o canal Brazil Birding. Sem renda desde o início da pandemia, ele está sobrevivendo com o auxílio emergencial de R$ 600 do governo federal. Ele ainda mantém um comedouro para as aves. Porém, ele diz que o custo de manutenção é alto. “Cada cacho de banana custa 30 reais, quando tem para comprar. Isso porque o fornecedor está diminuindo a frequência de entrega”, relata o guia. Nido conta que, nos últimos meses, tem recebido a ajuda de um cliente de São Paulo para a manter o comedouro ativo, mas não sabe como vai ser daqui em diante. “Sem recursos, vai ser difícil manter o comedouro”, disse.

Ave no comedouro – Nido Cafezeiro

No município de Bonito, em Mato Grosso do Sul, desde primeiro de julho os hotéis e atrativos turísticos já podem retomar as atividades. Mas, muitos empresários do setor preferiram esperar até agosto. O guia de observação de aves, Vitinho, disse que todos os trabalhos com clientes estrangeiros foram transferidos para o ano que vem e 2022.  “O pico (da doença) está sendo agora. Vai demorar até tudo voltar ao normal e ter viagens”, disse. O último cliente do guia foi em 19 de março. Atualmente, ele recebe o auxílio emergencial. “Estou aproveitando para fotografar e divulgar o meu trabalho na internet”, disse. Ainda, segundo ele, todos os guias da região vão passar por um treinamento do Sebrae que vai abordar os protocolos de biossegurança para atendimento aos visitantes da cidade turística.

Caverna em Bonito – MS
Caverna em Bonito – MS

Pantanal

A região do pantanal estaria entrando, agora em julho, na alta temporada para o turismo de observação de vida selvagem e de onças-pintadas. Muitos observadores de aves estrangeiros estariam vindo ao Brasil para observar as espécies no pantanal e em outras regiões do país.

Na pousada Pouso Alegre Lodge, localizada na rodovia Transpantaneira, nada de hóspedes até o final do mês de junho. Há apenas consultas para os meses de agosto e setembro. O dono da pousada, Luiz Campos, relata que está pagando as contas com dinheiro de uma reserva para manutenção da fazenda.

Ave no Pouso Alegre Lodge/Transpantaneira

Na região, as pousadas recebem dois tipos de visitantes. Um deles é o que gosta de contemplar a natureza. Esses são, em sua grande maioria, estrangeiros. O outro tipo de visitante é o que gosta de pescar nos rios do pantanal. Como a temporada é curta, vai até novembro, a preocupação dos donos de hotéis e pousadas da região é que não haverá tempo suficiente para receber turistas ainda esse ano. “Passando a pandemia, vem a piracema”, disse o dono de um hotel de Poconé, em um grupo de whatsapp que reúne empresários do setor. Ele também relata que fechou o estabelecimento.

Na região do Porto Jofre, no final da rodovia Transpantaneira, se concentram muitas pousadas e hotéis. Para o dono da pousada Pantanal Jaguar Camp, o empresário Ailton Lara, é preciso se reinventar para atrair o turista brasileiro. “Estamos com trinta por cento de desconto nos pacotes, trabalhando apenas nos finais de semana para o turista doméstico”, afirma. Durante a semana a pousada fica vazia.

Turistas na observação de onças
Onça Pintada

No município de Chapada dos Guimarães, a 60 km de Cuiabá, o parque nacional que tem o mesmo nome está fechado. Na pousada do Fernando Evangelista, pouco movimento. Fernando, que faz o trabalho de guia para estrangeiros no pantanal, conta que 15 grupos com turistas do exterior foram cancelados ou remarcados. “A minha sorte é que não tinha recebido o pagamento de forma antecipada. Senão teria gastado os recursos e agora teria que devolver esse dinheiro”, disse ele.

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Rogério SiqueiraImpactos da pandemia no turismo de observação de aves

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